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O trio que mudou a cara do Mineirão

O trio que mudou a cara do grande estádio do Mineirão

Foram dois anos de trabalho árduo. Milhares de desenhos. Viagens pelos EUA, Europa e África para pesquisar o que há de melhor em arenas esportivas no mundo. Tudo isso para dar uma nova cara a um dos cartões postais de Belo Horizonte, o estádio do ​Mineirão. E ainda com a missão de atender às exigências da FIFA para a Copa de 2014 – e também a de transformar o legado esportivo cultural desse gigante da Pampulha. (Foto: Divulgação)

Confira abaixo o papo que o portal AeC teve com Marcelo Fontes, Bruno Campos e Silvio Todeschi, da BCMF Arquitetos, responsáveis por transformar os 300.000 m2 do Mineirão:

 

Como foi assumir o desafio de revitalizar um ícone de Belo Horizonte?

Marcelo Fontes: Foi uma honra e uma oportunidade única trabalhar neste projeto de requalificação arquitetônica e urbanística. O Mineirão é um ícone não só do esporte, mas também da arquitetura brasileira. Estamos com a sensação de que depois dessa empreitada hercúlea, qualquer projeto será mais fácil.

Bruno Campos: Uma intervenção desse porte, em uma estrutura existente há 45 anos, parte do “cartão postal” da Lagoa da Pampulha, requer todo o cuidado e respeito. Foram dois anos de trabalho árduo e dedicação total... O grande desafio foi garantir que o Mineirão se tornasse uma instalação com infraestrutura, tecnologia moderna e capacidade de receber mega eventos esportivos e não esportivos internacionais. Mas também enxuta e otimizada para operações do dia a dia, integrado à vida do bairro e da cidade de uma forma harmônica, respeitando o contexto urbano e a paisagem existente.

Como foi conciliar as inúmeras exigências da FIFA com as pressões da sociedade? 

Bruno Campos: Para a realização da Copa 2014, projetos específicos de instalações temporárias precisam complementar as definitivas, contemplando todas as necessidades do evento da FIFA, garantindo o acesso e o apoio adequados ao público, atletas, imprensa etc. Os espaços internos temporários nem sempre permanecerão com a mesma função que tinham durante o evento. Assim, teremos um dos mais modernos estádios do Brasil, que atende a todos os pré-requisitos internacionais, do Comitê Organizador e da FIFA. 

Marcelo Fontes: Tivemos que validar todas as inovações do projeto junto ao cliente (Minas Arena), à SECOPA e ao COL/FIFA, o que exigiu a preparação de inúmeros relatórios descritivos e justificativas técnicas. Além de todos os desenhos, fizemos centenas de diagramas, croquis, maquetes físicas e eletrônicas durante o processo, para ajudar a visualização das propostas e aprovar o projeto perante todos os órgãos competentes: Prefeitura, Patrimônio Histórico, Corpo de Bombeiros etc.

Quais pontos você elegeria como os mais críticos do Mineirão antigo e que foram resolvidos no novo projeto? 

Silvio Todeschi: O Mineirão foi originalmente projetado no final dos anos 40 e inaugurado em 1965 como o segundo maior estádio do Brasil. Eram outros tempos. Como era comum na época, o estádio tinha uma "geral" com lugares mais baratos e com pior visibilidade, onde o público ficava em pé. Além disso, nas arquibancadas, não havia poltronas nem o conforto de hoje. Os estádios naquela época eram muito mais simples, não havia tantos requerimentos de segurança, sustentabilidade, carros eram um privilégio etc. Ainda não havia a preocupação com acessibilidade universal. Mas além das dificuldades técnicas inerentes a se intervir em uma estrutura antiga, é importante ressaltar a nova Esplanada ao redor do estádio, uma grande praça semi pública que foi esculpida de acordo com a topografia e cuidadosamente implantada em desníveis no terreno. Essa solução de “topografia artificial" minimiza o impacto da inserção da nova construção no entorno, interferindo pouco na integração paisagística da orla da Pampulha.

Um projeto desse porte envolve recursos materiais e humanos em grande volume. Como administrar tudo isso com um prazo apertado?

Marcelo Fontes: Desde a nossa contratação pelo Consórcio Minas Arena, no final de 2010, ficamos praticamente 100% por conta desse projeto, juntamente com uma dedicada equipe. Nossas responsabilidades foram proporcionais ao tamanho do empreendimento: é um trabalho de escala e dimensão urbanística que exige extremo rigor para todos os mínimos detalhes em que não podíamos errar. A equipe de arquitetura teve, no momento de pico, 25 pessoas. Foi um trabalho extremamente exigente, pois, além do volume do projeto em si tivemos que trabalhar concomitantemente com o acompanhamento da obra e coordenar tecnicamente a compatibilização de todos os projetos de outras disciplinas.  

Muito se diz que, com as reformas para a Copa do Mundo, os estádios estão perdendo sua aura popular e se elitizando. Qual sua opinião a esse respeito?

Bruno Campos: Sem dúvida é uma mudança cultural grande. Não haverá mais a "geral", com o público em pé, em nenhum estádio. Talvez isso possa ser visto como um reflexo da situação do próprio país, que também vem de certa forma se “elitizando”, com o maior poder aquisitivo da classe média emergente. Mas uma coisa parece ser certa: ir ao estádio já voltou a ser um programa para toda a família e a tendência é que cada vez mais essas “facilidades” (conforto, segurança, amenidades) atraiam um público cada vez mais diverso.

O Mineirão antigo sempre foi bastante criticado pelo seu sistema acústico. Agora, com shows de Elton John e Paul McCartney, o problema parece ter sido resolvido. O que de fato foi feito a esse respeito?

Silvio Todeschi: Mais do que a questão da acústica, o Estádio recebeu inúmeras modificações e modernizações. Começando pelas áreas externas, foi criado um grande estacionamento para vans e caminhões de transmissão (o chamado broadcast compound), além de uma enorme área de carga e descarga para dar suporte aos mais variados eventos. A estrutura existente recebeu um exoesqueleto tecnológico de calhas e dutos, tornando o estádio muito mais moderno e seguro, com instalações de ar condicionado, câmeras de segurança, quilômetros de cabos de energia, fibra ótica etc. 

Em tempos em que sustentabilidade é palavra de ordem, o que você destacaria a esse respeito no novo Mineirão?

Marcelo Fontes: Hoje em dia sustentabilidade é praticamente um pré-requisito de boa prática de projeto. A FIFA embarcou nessa iniciativa há algum tempo através do programa Green Goal. Dentre as soluções sustentáveis do Mineirão, podemos destacar a maior usina fotovoltaica sobre cobertura do Brasil; reaproveitamento de cerca de 90% dos resíduos da obra; doação de cadeiras, terra, grama, postes e até a madeira para artesãos; reaproveitamento da água da chuva, iluminação, ventilação natural etc. Uma das metas do processo de modernização do Novo Mineirão é a obtenção da certificação Leed (Leadership in Energy and Environmental Design), que atesta o estádio como um empreendimento "verde", ambientalmente sustentável.

A BCMF Arquitetos está envolvida também em um projeto para as Olimpíadas de 2016. Qual a diferença entre se projetar para a Copa e para as Olimpíadas?

Bruno Campos: Não existe muita diferença em se projetar para a Copa do Mundo ou Olimpíada. Projetar para um mega evento esportivo requer o atendimento a uma série de pré-requisitos, regulamentos e normas nacionais e internacionais. Nossa primeira experiência foi com os Jogos Panamericanos de 2007, o premiado Complexo Esportivo de Deodoro no Rio de Janeiro. Posteriormente, participamos da elaboração da maioria dos estudos conceituais da vitoriosa candidatura do Rio de Janeiro a sede dos Jogos Olímpicos de 2016, contratados pelo Comitê Olímpico Brasileiro (COB). Com a Copa do Mundo de 2014 e a Olimpíada de 2016, no horizonte, a questão mais premente parece ser como se aproveitar desses eventos internacionais para transformar as cidades e o país depois que eles acontecerem. O evento pode ser um catalisador de intervenções de qualidade, melhorar infraestrutura, alcançar status internacional e acelerar a regeneração urbana. Essa é uma questão crucial para arquitetos e urbanistas, e de políticas de governo e planejamento em todos os níveis.