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“Temos os melhores empreendedores do mundo e investidores dispostos a correr riscos”

Diretor de portfólio da Ideiasnet fala sobre mercado e seus desafios

Foto: Divulgação


Para o mercado de tecnologia brasileiro, os bons ventos podem não soprar com o mesmo frescor e intensidade de dois anos atrás, mas a maré continua para peixe. E, se tudo correr bem e depender do otimismo de Everson Lopes, teremos uma peixada próspera por muito tempo. Lopes é o diretor de portfólio da Ideiasnet, empresa pioneira no Brasil em venture capital (investimento de risco) em tecnologia.

Em atividade desde 1999, a Ideiasnet é dona de um portfólio de empresas que soma mais de R$ 2 bilhões. Entre elas estão MoIP, Officer, Padtec, AddComm, Automatos, Softcorp, Spring Wirelesse e outras. Conta com acionistas como a empresa EBX, de Eike Batista, e gestoras de recursos, como a Opus, criada por ex-sócios do Banco Pactual. 

Everson Lopes fala sobre como trabalha a Ideaisnet, o mercado tecnologia e seus desafios e a sua visão otimista sobre o cenário do talento empreendedor do Brasil.

Como a Ideaisnet trabalha? Qual é o critério para uma empresa fazer parte do portfólio da companhia?

Temos uma tese de investimento um pouco ampla, mas também bastante criteriosa. Gostamos de investir em empresas de tecnologia. Gostamos de tecnologia porque, na maioria das vezes, são negócios escaláveis, não é preciso muito investimento em estrutura física e, quando o produto é software, sua distribuição é muito fácil. Além desses critérios, outra coisa bastante importante para nós é a equipe. Buscamos um conjunto de empreendedores fundadores que entendem muito bem o problema que estão solucionando com seu produto, que conhecem o mercado e têm vontade de vencer.  Hoje temos 13 empresas. O que fazemos é investir, fazer crescer e desinvestir, faz parte do ciclo. A Ideiasnet é único fundo de investimento em tecnologia no Brasil que tem de fato a saída no mercado.  

Quais são as áreas que mais chamam a atenção da Ideiasnet?

Algumas áreas que têm nos atraído mais são soluções para ecommerce, softwares de serviço, aplicativos para mobile, mídia digital, soluções tecnológicas para saúde e educação. Recentemente, começamos a desenvolver uma tese de investimento sobre biotecnologia, que é uma área que me interessa muito.

Startups estão na mira de vocês?

Preferimos evitar negócios em nível pré-operacional. Gostamos de investir em empresas que já estão em operação, não necessariamente em negócios que já estão dando lucros, mas é muito importante para a gente que o negócio já esteja funcionando. Buscamos uma abrangência, na qual podemos entrar com investimentos menores de R$ 1 milhão até aportes bem maiores. A ideia é acompanhar o crescimento das empresas e ajuda-las a escalar sua produção.

Como você vê o cenário do mercado de tecnologia no Brasil hoje? 

A gente tem muito tempo de mercado e sabe como o Brasil funciona. Ele cresce, mas cresce no compasso de uma montanha russa: sobe um ano, desce outro, sobe dois anos, desce outro. Apesar de estarmos passando por um momento não tão bom no Brasil como há dois anos, com os investidores estrangeiros tirando o pé do acelerador,  a qualidade das empresas de tecnologia e dos empreendedores vem melhorando substancialmente. Um dos motivos é o forte movimento empreendedor que começou há alguns anos, que formou bons empreendedores. Além disso, tem muita gente de fora super capacitada que tem vindo para o Brasil e está formando gente aqui também. A qualidade da nossa oferta de empresas e serviços melhorou exponencialmente e vai continuar melhorando. Fora isso, o país tem muitas oportunidades. É um mercado gigantesco que não tem tanta competição quanto os mercados americano e europeu, que têm uma série de problemas para serem resolvidos – que representam oportunidades. Hoje nós temos talento e capital de risco para aproveitar essas oportunidades, o que antigamente não existia.

E quais são os maiores desafios desse mercado hoje?

O Brasil tem um ótimo cenário, temos os melhores empreendedores do mundo e investidores dispostos a correr riscos. Só precisamos que o governo não atrapalhe e não mude a regras do jogo de uma hora para outra. É preciso que o governo passe uma imagem de mais estabilidade para o investidor externo. Se você tem um país com segurança jurídica que levou tempo para conquistarmos, para que mudar isso agora? O Brasil é um país onde no final do dia o Estado é o maior competidor dos empresários brasileiros. O Estado toma crédito no mercado através de emissão de bônus, ou através de captação das próprias estatais, pagando um custo que as empresas não conseguem acompanhar. Com isso, o Estado seca todas as opções de capital e asfixia o mercado. E para o Estado precisar de menos crédito  ele precisa de uma gestão mais eficiente. É necessária um reforma nesse sentido, senão o Brasil nunca vai conseguir decolar. Nunca tivemos um movimento empreendedor tão forte como agora. O que não podemos deixar é que os desafios desanimem os empreendedores e essas pessoas voltem a procurar empregos.

Você mencionou o interesse da Ideiasnet em investir em biotecnologia. Quão forte é a vocação do Brasil nesta área?

O Brasil é cheio de gente talentosa nessa área e de oportunidades no setor agrícola e da saúde. Ao contrário das outras áreas nas quais investimos, a biotecnologia precisa de um pouco mais de infraestrutura e conhecimentos científicos sólidos. O que se precisa é de capital e dar apoio aos cientistas, que tradicionalmente não têm uma veia tão empreendedora. Tem uma revolução biotecnológica vindo aí, existe um faísca para isso começar e ser uma coisa grande no Brasil. Tem talento, tem capital e tem mercado, não tem porque não acontecer. 
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