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Aprendi que a web é para os corajosos

A blogueira fala sobre o que aprendeu ao se expor na Internet

Em 2007, a publicitária e escritora mineira Cris Guerra passou a tirar fotos do seus looks e postar diariamente em seu blog, Hoje Vou Assim. Rapidamente, o blog gerou muita repercussão na web e fez com que Cris se tornasse uma formadora opinião quando o assunto é comportamento, moda e estilo. A coisa foi além, Cris Guerra acabou virando uma marca. Em entrevista para o Portal AeC, a blogueira fala da benesses (e dos desafios) de se expor na Internet, sobre largar uma carreira bem-sucedida para se dedicar aos seus próprios projetos e sobre o assunto de seu livro recém-lançado: Moda Intuitiva.

Você largou uma bem-sucedida carreira na publicidade para se lançar como marca na web. Como se deu esse processo? Você imaginou que as coisas poderiam chegar aonde chegaram?

Não, nunca imaginei que as coisas pudessem caminhar ou ir para lugar algum, quanto mais chegar aonde chegaram. Mas se houver alguma explicação para esse processo de me tornar marca na web, ele está relacionado ao fato de que fiz tudo com o coração, inteiramente, entregue. Acho que isso faz muita diferença. Eu estava vivendo um momento de vida muito particular e precisava me expressar, assim como fazer algo diferente que preenchesse meu tempo e me ajudasse a olhar para frente. Fiz isso com todo o sentimento do mundo. A vontade de me expressar era maior que eu. Acho que a naturalidade dessa expressão, o impulso de fazer e principalmente a ausência de autocensura é que levaram a coisa adiante. Acredito que o que tem uma verdade muito forte ganha uma força incrível na web. As pessoas estão interessadas na verdade das outras, principalmente depois de um período em que a fantasia começou a não saber mais se reinventar. A vida real passou a ser mais interessante – e nisso está inserido a maneira como cada um conta a sua história.

Seu primeiro blog (parafrancisco.blogspot.com) virou livro. E agora é a vez do seu segundo blog (www.hojevouassim.com.br) inspirar um outro livro. Como é ver trabalhos que nasceram no ambiente web se transformarem em livros impressos?

Há um sentimento muito gostoso em ver um trabalho virtual se tornar livro. Parece que ali ele começa a existir de fato, porque se materializa. E também tem o poder de encerrar um ciclo. Depois do Moda Intuitiva, eu me sinto livre para encerrar o blog, se quiser. Como se algo tivesse se concluído, sabe? Acho a web sensacional, mas nada substitui tocar um livro, lê-lo tendo-o nas mãos, sentir o cheiro das páginas e, principalmente, saber que ele não vai mudar, pois retrata a época em que foi escrito. O livro é uma obra culturalmente mais verdadeira, mais valiosa do que algo virtual – sempre passível de ser mudado. São duas coisas diferentes. E ver um blog virar livro marca um tempo diferente dos livros também. Um tempo em que o autor escreve já tendo uma ideia da temperatura da sua interação com o leitor. É um novo tempo, traduzido para um formato de certa forma tradicional. 

Seu blog Hoje Eu Vou Assim virou um fenômeno muito rápido e inspirou imitações e paródias. Hoje, ele vai muito além de looks diários, englobando colaborativamente outros conteúdos, expandindo em muito o universo da moda. Passados seis anos desde seu primeiro post, qual a maior lição que você aprendeu com a web?

Aprendi com a web que seria possível escrever para outros meios, e não apenas para fins publicitários. Aprendi que eu poderia ser escritora, atividade para a qual não me considerava apta. Aprendi que as pessoas estão ávidas para se comunicar. Entendi também que temos que estar sempre mudando – sem deixar nossa essência para trás – se quisermos continuar tendo leitores na web. E, principalmente, aprendi que a web é para os corajosos – se expor não é para os fracos.

De certa forma, você resolveu se expor na web. Sabe-se quem você é, de onde você vem, o que você pensa e, até, o que você veste. Não chega a ser assustador às vezes?

Muito! Mas o caminho que segui até aqui teve esse tempero – não há como dizer que não. Mas tenho consciência disso e hoje caminho para firmar cada vez mais o meu trabalho como profissão e descolá-lo da minha vida pessoal. Explico: por mais que seja a minha experiência pessoal a base que me colocou aqui, ela não deve ser o que me mantém aqui, e sim a minha forma de ver as coisas. A exposição foi o caminho natural através do qual conquistei leitores. Mas não precisarei fazer da minha vida um tema constante para a produção de conteúdo interessante. Até porque haja fôlego para tantos acontecimentos! Quero mais é paz e felicidade.

Quais os maiores desafios para se manter relevante na web, atraindo visitantes e anunciantes?

O maior desafio é entender para onde esse público está caminhando e conciliar isso com o que gosto de fazer. Ou seja, não é uma escolha certeira: envolve uma certa harmonia que não é propriamente fabricada. Ela acontece ou não. Na verdade, minha passagem pela web determinou minha nova profissão, mas a web não é em si a minha atividade profissional. Ela foi um caminho que me tornou conhecida e continua sendo importante como vitrine do meu trabalho, mas não é o meu trabalho em si. Isso foi necessário até para que eu mesma entendesse o valor do que faço, a relevância que talvez eu não considerasse da minha forma de escrever e de ver a moda. Agora a estrada é comigo, seja envolvendo a web ou não. Não consigo fazer nada que não tenha uma verdade muito grande. Portanto, se assim for, a web não vai ser o foco principal do meu trabalho, e sim apenas mais um meio para que ele chegue ao público. A web me levou a mídias mais tradicionais como revista, rádio e até palestras, que é o meu foco principal atualmente. E não há “mídia” mais direcionada que uma palestra, que é falar diretamente para o público. Mais que isso, só uma conversa tête-a-tête.

O que é Moda Intuitiva, o conceito e o livro?

Moda intuitiva é a expressão que resume a minha relação com a moda. Sempre foi assim, mas depois de um tempo, olhando retroativamente, entendi que, por incrível que pareça, eu tinha algo de novo a dizer, talvez pela maneira injusta como a moda sempre foi tratada pela mídia. Não havia ninguém falando isso sobre a moda – ela era sempre tratada como algo matemático, calculado, cheio de regras e de “certo e errado”. Tudo começou com este vídeo:
​​Ele fala da maneira como encaro a moda, e encontrou um eco importante entre as pessoas comuns e também entre os profissionais de moda. Eu não achava que estava dizendo nada de mais. Mas a repercussão desse vídeo, no final de 2011, mostrou que as pessoas estavam em busca de uma visão mais natural sobre a moda, algo que as libertasse das regras e as colocasse em contato com o autoconhecimento e a autoestima, que são pontos fundamentais para viver a moda como exercício de liberdade, e não como aprisionamento. No livro, eu elaboro o que aprendi nesses seis anos de look do dia, relatando para o leitor o que deu certo para mim e incentivando-o a fazer moda dessa forma despretensiosa e verdadeira. Não dou o caminho das pedras, mas conto o que deu certo para mim, encorajando o leitor a descobrir seu próprio caminho. E como a moda é movida a permissões, de certa forma o livro inaugura um momento novo na vida de quem o lê. Conto histórias sinceras, divertidas, profundas até, revelando como isso fez diferença para o meu autoconhecimento e autoestima. Antes de ser um livro sobre moda, é um livro que fala sobre vida e sobre gostar de ser quem se é.
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