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Ronaldo Fraga e o desafio de surpreender

Estilista fala sobre originalidade e processos criativos

Foto: Bruno Magalhães/Agência Nitro

 



Desde os anos 1990 que Ronaldo Fraga é reconhecido nacionalmente - e por que não internacionalmente – no mundo da moda. Conhecido pelo estilo inusitado e por desfiles emocionantes, Fraga diz ter se envolvido com moda “quase que por acaso”. Acima de tudo, importante para o estilista é poder canalizar sua força criativa, seja lá como for. Um exemplo disso é o figurino e a direção de arte da peça teatral Fonchito e a Lua, adaptada do livro do escritor peruano Mario Vargas Llosa. Trabalho encabeçado pelo diretor Daniel Herz e o dramaturgo Pedro Brício, a peça estréia dia 25 de janeiro no Rio de Janeiro, no Centro Cultural Banco do Brasil e, em março, chega a Belo Horizonte, no Teatro Oi Futuro Klauss Vianna. 

 

Ronaldo Fraga falou exclusivamente ao Portal AeC sobre processo criativos, como deixar a máquina da criatividade funcionado e contou um pouco da sua história. 

 

Quando você descobriu sua vocação criativa?
Eu nasci numa família de cinco irmãos, meus pais morreram muito cedo e eu sempre gostei de desenhar. Às vezes, eu paro para pensar se era eu que gostava de desenhar ou se era a criançada daquela época que desenhava mais. Mas o fato é que quando eu escolhia algum presente era sempre alguma coisa que para eu pudesse desenhar. Órfãos muito cedo, a gente não tinha recursos e eu procurava cursos que fossem gratuitos: curso para ensinar a desenhar faixa de rua, curso de rosca de parafuso, se fosse curso de desenho eu fazia. Mas nunca tive a preocupação de falar “isso aqui vai ser uma profissão”. Um dia uma vizinha me falou que estava fazendo um curso de desenho de moda no SENAC - lembrando que os anos 80 eram uma época que ainda nem existia o curso superior de moda, as pessoas não viam o profissional de criação de moda como profissão. Vi os desenhos, eu achei bem bacana e era gratuito o curso. Falei “se é gratuito, eu também vou lá fazer”, eu tinha uns 16 anos. Metade da turma era formada por senhorinhas e costureiras, a outra parte era formada por travestis que estavam ali pra aprender a desenhar fantasias de carnaval. As aulas eram animadíssimas. No final do curso, só eu que tirei nota máxima porque eu já sabia desenhar rosca de parafuso e isso pra moda é quase a mesma coisa. Poucas semanas depois, o setor de colocação profissional do SENAC me ligou me oferecendo um emprego: foi o meu primeiro, em uma loja de tecidos no centro da cidade. 

 

E a partir daí que a moda apareceu como profissão?
Sim, foi ali que eu aprendi a coisa. Depois disso, eu fiz UFMG, ganhei uma bolsa, fui fazer pós-graduação em Nova Iorque, depois Londres. Mas o que foi fundamental pra minha formação foi essa loja de tecidos. Quando abriam a loja, havia 30 mulheres na minha frente com o rolo de tecido, querendo a roupa para o batizado, velório, gorda, baixa, alta, magra, rica, pobre, amarela... Só eu sabia desenhar e não tinha vocabulário de moda. Eu começava a ouvir a história delas e então, nas entrelinhas, a roupa saía. Eu acabava desenhando aquilo que nem ela sabia que era o que ela queria. Eu cresci profissionalmente fascinado com essa história individual de cada um. Um belo dia apareceu a dona de uma confecção e falou “preciso de alguém pra desenhar”. Ela me ofereceu quatro vezes mais do que eu recebia e eu fui trabalhar com ela. Na época, eu já tinha feito vestibular para Artes Plásticas na UFMG, eles tinham acabado de implantar o curso de Estilismo, foi o primeiro do país. Eu falei assim “vou pular para aquele ali mesmo, porque lá eu tenho emprego”. Basicamente, seja a moda ou qualquer outra coisa, pra mim, é fundamental que eu desenhe. Quase que por acaso eu entrei na moda, mas amanhã, se eu tiver que deixar de trabalhar com moda, eu deixo numa boa. Mas deixar de desenhar eu não deixo nunca.

Você tem dado aula de desenho para empresários? Isso auxilia o empresário em quê?

Em várias coisas: autoestima, autonomia, e sem contar que é uma coisa extremamente terapêutica. Tem alguns poucos que buscam isso como aplicação profissional direta, mas a grande maioria curiosamente consegue entender que é pra outra via, é uma coisa mais pessoal e o quanto que isso vai dar a eles uma autonomia pessoal. Eu acho que todo mundo desenha, mas tem um momento na adolescência que as pessoas tentam te convencer de que não existe coelho roxo, que não existe girafa de duas cabeças e tem muita comparação com o desenho do vizinho. Hoje as pessoas estão desaprendendo o movimento das mãos, quanto mais desenhar. Desenhar é libertador. Tanto é que quando você vai fazer uma seleção em qualquer agência de design gráfico, a prioridade é quem sabe desenhar à mão livre, porque ninguém sabe mais. Existe aquela clássica frase: “criação é 1% inspiração e 99% transpiração”. 

 

Com você é assim também? 
As pessoas confundem duas coisas: inspiração e processo criativo. Processo criativo, por mais que você negue, ele existe. É uma metodologia individual pra você organizar ideias e estimular o desejo de criação. Não acredito em inspiração como um momento da criação que bate e acontece para um e não acontece pra outro. No meu caso, é mais um processo de organização de ideias. Eu preciso de um caderno de desenho, que é basicamente um diário de organização dessas ideias. É uma curadoria da própria mente e um registro de coisas pra não esquecer. Por exemplo, uma coisa que as pessoas sempre perguntam: como você escolhe a história da sua coleção? Eu sempre escolho o caminho pra alguma coisa que me provocou isso. Ou a vontade de entender mais sobre aquilo, ou a vontade de levar aquilo para o meu universo, ou a vontade de falar sobre aquilo para as pessoas. 

É como se eu te contasse uma história. Para a minha última coleção, eu desenvolvi um processo com sete curtumes do Brasil. Fui para o Sul, fui para o Cariri e quando eu cheguei no semiárido fiquei fascinado com aquilo. Saí de lá contando as historias para mim mesmo. Então, quando eu começo a falar muito sobre um tema, pronto, é nisso que eu quero trabalhar por seis meses. Já me perguntaram por que fazer isso através da moda. Como eu te falei, foi por acaso. Poderia ter sido através de outra coisa. Se tivesse outra manifestação artística na qual eu tivesse entrado, provavelmente eu teria a mesma conduta de contar, de trazer universos, de colocar universos em diálogo com outros. 

Bloqueio criativo lhe acontece? Como você lida com isso?
Não sei nem se é a palavra bloqueio... Claro que tem dia que as coisas fluem melhor, a narrativa flui melhor. Mas, no meu caso, esse bloqueio vem muito porque no meu trabalho eu dependo muito de um monte de gente para que ele aconteça. Tem a rapidez do pensamento, da criação, do fazer a roupa, que, aliás, é onde está o pior da moda. É fascinante ver a ideia do desenho ser transformada em tecido, que vai ser construído em roupa, que vai ser lançado e a pessoa vai usá-la em seu personagem. Mas isso também é chato, porque são tantos processos para que a coisa deixe de ser o desenho... Mas se fosse só o desenho, eu seria artista plástico, eu teria outro caminho. 

A originalidade, por exemplo, está se perdendo por causa desses processos? 
Surpreender-se no mundo em que a gente vive, num mundo previsível, é uma coisa rara. E não é por conta dos processos apenas, é pela previsibilidade do tempo que a gente está vivendo. Não tem mais espaço para o acaso mais, não tem espaço para o erro mais. Nós vivemos num mercado que não te dá tempo pra maturação. O que é bom é que esse mercado é diverso, tem espaço pra tudo. Então, se por um lado, a produção hoje é em série, e você tem que ter excelência e ser meio engessado, por outro a assinatura ganha valor. Hoje você chega em qualquer cidadezinha e, num restaurante, te falam: “espera aí que eu vou te apresentar um chefe daqui do lugar”. São tempos em que, de qualquer forma, estamos retomando uma coisa que perdemos: os valores da autoralidade. Em tempos em que os chineses vão fazer exatamente tudo o que você quiser num tempo cada vez mais curto, num custo inacreditavelmente baixo e de qualidade pra todos os bolsos, o desafio é trazer algo intangível pra essa produção de roupas. É aí que a moda ganha outro caminho. 

Já dá pra falar em uma moda do século XXI?
Estamos vivendo um momento de definição de uma nova era. O mundo acabou, a comida acabou, a moda como conhecíamos acabou, o mundo acabou mesmo, ele está em reinvenção e nós ainda não sabemos como inventar. 

Neste contexto, o que é o novo luxo? 
De tempos em tempos, o homem vai inventar novos luxos para continuar desejando. Hoje o genuíno é a grande história, o regional hoje é luxuosíssimo. Emocionar-se hoje é caro. Conseguir chorar por alguma coisa que não seja dor é caro. Um luxo é ser simples, que é muito difícil e é um desafio da moda.

​Qual conselho você daria se às pessoas para que elas conseguirem manter a máquina da criatividade rodando? 

 
Uma coisa muito importante é o olhar difuso, é parar de olhar para o próprio umbigo. Sair de dentro da sua casa, do seu quarto, do seu grupo de amigos. Se alimentar de tudo, colocar tudo pra dentro e depois ver o que é que sai. Isso que é a mola propulsora de qualquer processo de criação. É com isso aí que você faz repertório para a criatividade, não tem outro jeito.
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