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Democracia em tempos digitais

Uma entrevista com Fernando Barreto, da Webcitizen

 
 
Aqui vai uma frase clichê: a tecnologia está mudando as formas como nos relacionamos com as coisas, com o mundo, com a sociedade. Mais do que natural que essas mudanças também afetem nossa vida política. Um exemplo disso é a Webcitizen, uma empresa especializada em criar plataforma digitais promover a participação política do cidadão comum.
 
O mineiro Fernando Barreto, fundador da Webcitizen, conversou com o Portal AeC sobre a importância da tecnologia digital para o fortalecimento da representatividade política e a promoção da cidadania, a função da Internet e das redes sociais nesse cenário.

A Webcitizen é um empreendimento social. O que é importante ter em mente e quais práticas são cruciais para evitar conflitos éticos nesse tipo de negócio?
A Webcitizen é uma empresa privada que tem projeto de impacto social. Acredito que é preciso ter muita clareza do propósito dos projetos. Ter claro para todos os envolvidos o porquê de estarmos fazendo isso. Com isso os conflitos éticos são evitados com mais facilidade, pois todos estão cientes de que manter a ética no trabalho é questão de sobrevivência do projeto. É crucial manter claro para a equipe os valores que defendemos para que possamos defendê-los a qualquer preço. Para isso é preciso ter pessoas na equipe que compactuam com os mesmos valores da empresa.
 
No Vote na Web, vocês têm a função de “traduzir” projetos de lei para uma linguagem mais inteligível. Como é o desafio de ter acesso, reunir, priorizar e traduzir essa informação que é complexa, em grande quantidade e muitas vezes desorganizada?

Um dos maiores desafio que temos hoje é fazer o resumo dos projetos numa linguagem mais inteligível, isso porque é preciso alterar o texto deixando-o mais palatável para o cidadão. Mas, ao mesmo tempo, temos que manter total imparcialidade e fidelidade ao texto original. Para isso temos profissionais da área de direito que fazem o primeiro resumo e depois um jornalista revisa para deixar o mais compreensível possível sem prejudicar o conteúdo.

Hoje, damos prioridade aos projetos de lei que estão na mídia, que possivelmente o cidadão já foi impactado de alguma forma por aquele assunto. Depois vem demandas de entidades de classe e até de parlamentares pedindo para inserir projetos específicos.
 
A Webcitizen tem o projeto VoteLab, a ciência do voto. Vocês acreditam que se os eleitores votassem baseados nas afinidades políticas que têm com os candidatos e não com base nas promessas dos mesmos, teríamos cidadãos melhores representados e mais engajados com a participação democrática. Como é possível evidenciar essas afinidades?

Não temos dúvidas que mais afinidade traz mais representatividade. Acredito que essa é uma premissa básica para uma democracia mais representativa. Preciso me ver no lugar do parlamentar, preciso sentir que, o que ele está fazendo seria o que eu faria se tivesse lá.

As afinidades são melhor definidas pelas polaridades. Assuntos de consenso não gera afinidade, todos queremos melhorar a mobilidade urbana, ter leis mais severas para a corrupção, melhorar a educação. Mas quando entramos em assuntos como a interferência do governo nos preços dos serviços básicos, a obrigatoriedade de ensino religioso nas escolas, o porte de armas, encontramos uma divergência muito grande das pessoas sobre esses temas, ai você consegue encontrar afinidade com o parlamentar que defende uma posição ou outra.
 
Como esses projetos têm impactado o mundo da política real? Além do cidadão, os políticos têm participado dos fóruns de discussão que têm sido criados pela ferramenta?

O primeiro impacto é de informar, inserir o assunto no cotidiano das pessoas para que elas possam discutir no seu dia a dia os problemas que são debatidos no Congresso e que afetam diretamente nossa vida. Por parte dos parlamentares, temos a adesão de alguns, como o senador Romário que usa o Votenaweb como termômetro de seus projetos. No final do ano passado ele anunciou em suas redes sociais que seus projetos que tiverem 51% de rejeição no Votenaweb serão arquivados. Um outro exemplo é o da senadora Ana Amélia que usou os dados de nossos relatórios para defender um de seus projetos no CCJ. Temos desde o início da plataforma uma adesão presente tanto de usuários quando de parlamentares.
 
As eleições presidenciais de 2014 dividiram o país. E o lado bom disso é que nunca se falou tanto sobre política e seu impacto em nossas vidas. Passado o pleito, qual sua avaliação do amadurecimento político do brasileiro? Demos um passo à frente, enfim?

Sem dúvida demos um passo a frente. Ainda temos uma discussão muito polarizada, meu time contra o seu time, não importa se o meu é bom, o que importa é o quanto o seu é ruim.
Temos de levar essa discussão para os problemas em si e qual é a melhor proposta para solucioná-los. O que estamos vendo hoje, inicio de 2015, é que as pessoas entenderam que as discussões da época da eleição não refletiam na totalidade a realidade do país e acredito que isso empurrará as pessoas a discutirem mais os problemas e a capacidade que cada candidato tem para solucionar o problema. A internet nos possibilita a memória, isso será fundamental para a evolução da democracia.
 
Nessas eleições, testemunhamos a força das redes sociais na influência do jogo eleitoral. Como você vê isso?

Vimos as redes sociais como torcida organizada. Não se via discussão de problemas e sim ataques para diminuir o adversário. Sem dúvida as redes sociais tem muita força e influencia o jogo para pautar os candidatos. Mas ainda não é decisiva, o grande poder ainda é da TV e quem tiver mais tempo tem muita vantagem. Vejo que isso vem mudando em cada eleição, mas estamos longe da internet ser decisiva.
 
Na sua opinião, as novas tecnologias já mostraram ao que vieram no que diz respeito a proporcionar mudanças políticas e sociais ou ainda vimos pouco desse potencial?

Sem dúvida já mostraram a que veio, mas não chegamos nem perto do potencial de impacto que ela tem. Para isso precisaremos que os dois principais atores, cidadão e político, entrem no jogo com mais propriedade. Em suma, a tecnologia nos ajudará quando tiver algo para escalar, precisamos de cidadão mais engajado e político mais estadistas.