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Entrevista com o azulejista Alexandre Mancini

 
O mineiro Alexandre Mancini nasceu em Belo Horizonte. Crescer numa cidade relativamente jovem como BH não o colocou em contato com a tradicional e famosa azulejaria portuguesa. Ao invés disso, Mancini voltou seus olhos paras as criações modernistas do complexo arquitetônico da Pampulha e de Brasília, onde é bastante presente a parceria de Oscar Niemeyer e Athos Bulcão – seu mestre na arte do azulejo.
 
Há alguns anos, Mancini deixou-se levar pela paixão por azulejaria e hoje, aos 40 anos, é tido como um dos maiores expoentes na arte. Discípulo formal de Athos Bulcão, Alexandre Mancini se empenha em dar continuidade ao projeto de seu mestre: a construção de uma identidade genuinamente brasileira na arte no azulejo.
 
Suas obras, ricas em módulos aleatórios e elementos geométricos simples, já podem ser facilmente vistas pela cidade de BH por olhos mais atentos. Recentemente, um novo trabalho jogou ainda mais luz sobre o artista: uma enorme painel na sede do Clube Atlético Mineiro, que conta a história de seus craques mais icônicos.
 
O Portal AeC bateu um papo com artista sobre isso e mais.
 
Como se deu seu interesse por azulejaria? Conte um pouco de sua trajetória profissional até chegar até aqui.
Foi um interesse praticamente inerente à minha vontade... Sempre a vi, sempre a admirei e por ter esta relação tão próxima decidi em 2006 largar tudo que fazia para me dedicar a azulejaria brasileira. Já trabalhei com tudo um pouco, mas antes de me dedicar a área de minha paixão tinha uma pequena empresa dedicada a decoração de porcelana e vidro, onde adquiri um pouco do know-how da produção e decoração das cerâmicas.
 
Muito é dito sobre a ascendência da azulejaria portuguesa na brasileira. O seu caso é diferente, você saiu dessa curva e foi produzir um azulejo quase divorciado dessa tradição. Fale um pouco sobre isso.
Minas Gerais e mais especificamente Belo Horizonte não receberam a influência da azulejaria portuguesa por motivos diversos. Nossa jovem capital tem 117 anos, ou seja, nasceu ligada à modernidade. Ao contrário das cidades litorâneas brasileiras, aqui se desenvolveu uma azulejaria de estética própria, realmente brasileira, que em seguida também se revelou em Brasília, outra jovem capital. Portanto, tenho nessas duas cidades as maiores referências da azulejaria.
 
Quem são os artistas que mais o influenciam? Por quê?
Devo a Athos Bulcão as lições essenciais sobre a utilização de elementos geométricos simples em modulação. Além disso, a sensibilidade em integrar a arte à arquitetura de forma a harmonizar e valorizar o projeto. Mas também sempre admirei as obras de Burle Marx quando do tratamento do painel como obra autônoma e Paulo Rossi Osir, o grande responsável pela produção dos painéis icônicos de nossa azulejaria.
Destaco também os artistas concretos e neoconcretos pelo tratamento dado a arte construtiva/geométrica.
 
Como é seu processo criativo?
Em resumo, tenho uma criação inicial que é mental, pensada e vislumbrada, a partir disso, faço as devidas anotações em cadernos e descrições em palavras mesmo. Aí está toda a concepção de uma obra ou uma estética. O passo seguinte é fazer das palavras e visões o desenho propriamente dito. Geralmente utilizo um programa vetorial como instrumento de desenho tal qual régua, compasso e transferidor. E como cuido pessoalmente da produção dos azulejos há uma preocupação anterior, ainda no desenho, sobre as técnicas e possibilidades de execução.
 
Como se deu a aproximação com Athos Bulcão a ponto de você se tornar um discípulo dele?
Em 2007 tive a imensa possibilidade de conhecê-lo pessoalmente em um encontro emocionante. A partir deste momento iniciei uma ótima relação com a Fundação Athos Bulcão mesmo após seu falecimento em 2008. Portanto, foi algo bastante natural essa ligação, principalmente pelo fato do professor ter deixado pouquíssimos desenhos inéditos e, por outro lado, eu começar uma carreira de destaque.
 
Assim sendo, como manter sua identidade e integridade artísticas?
A influência de Athos em meu trabalho é inevitável, porém, com o passar do tempo fui adquirindo uma linguagem bem particular baseada em novos pensamentos. E ao propor a continuidade da azulejaria brasileira fui impelido a buscar novas formas de composição, novas abordagens sobre o suporte, e atualmente venho executando obras que se distanciam muito dos trabalhos feitos no início de minha carreira como, por exemplo, as Composições Ordenadas e as Composições Autônomas. No entanto, sempre busco deixar uma "assinatura" visual.
 
Um de seus painéis se transformou em música (Tempestade de Triângulos). Como se deu esse inusitado casamento?
Foi uma destas criações mentais e depois descritas. A ideia nasceu em 2010, mas somente em 2013 consegui realizá-la. Para isso convidei meu amigo Jimmy Duchowny, jazzista norte americano, para criarmos uma peça musical. Em resumo, traduzi para ele o desenho em seus movimentos, divisões, acentuações, dinâmica entre tantos outros pontos e deixei para ele plena liberdade para compor a música. O resultado foi fascinante!
 
Uma das novidades para 2015 é justamente investir mais nesta ligação entre arte (desenho) e música. Baseado na matemática que une as duas formas de expressão já compus um bom número de músicas que serão lançadas no ano que vem. O trabalho é basicamente musicar os vértices do desenho em seus diferentes planos e movimentos.
 
Você recentemente montou um painel na sede do Clube Atlético Mineiro. Qual a sensação de unir uma vocação com uma paixão?
Esta é a obra de uma vida... O painel utiliza uma forma de composição atípica em meu trabalho, ou seja, é algo raro de fazer. A questão ali era muito maior. Era retribuir toda a devoção e todas as emoções. Além disso, tratar sobre a história do Clube para que as novas gerações compreendam que se trata de algo riquíssimo e muito mais antigo do que possam imaginar.
 
No azulejo assinado há uma dedicatória a meu pai, aquele que me ensinou a amar o clube. Vê-se, portanto, que a obra é algo puramente pessoal e emocional.