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A neurociência do alto desempenho

Entrevista com Steven Kotler, autor de Rise of Superman

Foto: Divulgação


O que faz as pessoas atingirem seu potencial máximo? Como é que a nossa capacidade de entrar em um estado de fluxo pode impactar o nosso trabalho? “Super Homens” - como atletas de alta performance e profissionais de esportes radicais têm algo que os torna diferentes de todos nós? Podemos aprender esse “algo”?
 
Foram as perguntas que o jornalista e pesquisador Steven Kotler tentou responder em seu livro “Rise of Superman” (A Ascensão do Super Homem). Kotler, como o próprio explica, quis decodificar a neurociência do chamado “estado de flow”, um estado de altíssima concentração que permite que atletas alcancem grandes resultados. Confira o papo com o autor.

O que exatamente é “A Ascensão do Super Homem”? Como você chegou a esse título para o seu livro?
O livro é sobre como atletas de esportes radicais e de aventura têm aproveitado o estado de desempenho de pico conhecido como "flow" (fluxo) para atingir grandes feitos atléticos. É verdadeiramente notável. Nos últimos 25 anos, esses atletas alcançaram um crescimento quase exponencial em seu desempenho esportivo – um desempenho que poderia colocar a vida ou a saúde de qualquer outro ser humano em risco. Daí veio à ideia do Super Homem, refere-se a este nível surpreendente de desenvolvimento físico e mental.
 
Mais importante ainda, pesquisas sobre o estado de flow avançaram muito nas últimas décadas. Assim, podemos usar o caso desses atletas e descobrir o que eles estão fazendo para aproveitar este estado com tanto sucesso e aplicar esse conhecimento em todas as áreas de atividade.
 
O que é exatamente esse estado de flow? Esse tal fluxo só pode ser atingido por atletas de alta performance que dedicam suas vidas a treinar duro?
Há uma série de equívocos. Um dos maiores é que o fluxo só pode ser aproveitado por atletas de elite. O flow pode ser alcançado por qualquer um desde que tenhamos certas condições iniciais. Cientistas descobriram que estado de flow está relacionado com a grande maioria das conquistas de medalhas de ouro em campeonatos mundiais de diversas modalidades de esporte. Mas também identificaram o mesmo estado em artistas, cientistas e até em homens de negócios. Em um estudo de 10 anos de duração feita pela Universidade Macuinense, por exemplo, executivos de renome relataram ser cinco vezes mais produtivos em estado de fluxo.
 
Outra coisa que se deve compreender é que o flow não é meramente uma experiência subjetiva. Com os avanços nas tecnologias de exames de imagem cerebral, como o fMRI e EEG, nos permitiram a entender a neurobiologia do flow. Pessoas nesse estado apresentam determinadas condições neurológicas e neuroquímicas durante este momento.

A partir de sua análise da pesquisa de neurocientistas, você demonstra que as ondas cerebrais de certos atletas quando estão competindo tornam-se diferentes, como isso acontece?
Em estado de fluxo, as ondas elétricas de nosso cérebro mudam. Quando estamos em estão de alerta normal, as ondas emitidas pelo nosso cérebro são as ondas betas. Em flow, passamos rapidamente a de beta para uma fronteira limiar entre alfa e theta. Produzimos ondas alfa, quando damos uma “viajada”, deixamos nossos pensamentos seguirem soltos, aqueles devaneios cotidianos, o famoso “sonhar acordado”. As ondas theta, entretanto, só surgem durante as fases profundas do sono - a REM. Esse limiar entre alfa e theta torna a nossa tomada de decisão mais fluída e rápida, não há hesitação. O que estudos mostraram é que o cérebro de grandes atletas têm mais facilidade para se manter nessa fronteira entre as ondas alfa e theta.
 
No livro, você mesmo dá um testemunho pessoal de como entrar em estado de flow tem te ajudado a progredir pessoal e profissionalmente. Como isso afetou sua vida?
Eu me tornei um escritor por causa do estado de fluxo. Ser criativo com as palavras me leva a este estado. E virou quase um vício. O flow foi um tema importante em três dos meus livros, mas também tem sido o “segredo por trás do meu sucesso”. Meus melhores artigos, as melhores passagens em meus livros, sem dúvida, a razão dos meus livros serem best-sellers, é tudo coisa que foi escrita em estado de fluxo. O que é engraçado, porque uma das coisas que distingue o estado de fluxo é a sensação de que alguém está lhe “dirigindo”. Eu escrevo coisas em estado de fluxo e eu não sei como isso aconteceu. Apesar de eu entender a ciência por trás dele, ainda me dá impressão de que é algo mágico.