AeC

Relacionamento com Responsabildade

Notícias

AeC Entrevista

“O interior do Brasil nunca foi um tesouro escondido, é só um tesouro que não conseguimos ver”

Entrevista com a pesquisadora Mayra Fonseca

Foto: Divulgação 
 


 
São mais de 8 milhões de metros quadrados de extensão territorial, 26 estados e um Distrito Federal, 5564 municípios e mais de 202 milhões de pessoas. Isso tudo é o nosso Brasilzão. É tão superlativo e tão variado em gente, costumes, expressões culturais e diversidade natural, que são pouquíssimos brasileiros que se atrevem a dizer que conhecem seu próprio país.
 
E a verdade é a seguinte: se você não conhece seu país, você não conhece a fundo seus desafios e não consegue enxergar soluções nem oportunidades. Com isso em mente, a pesquisadora Mayra Fonseca criou uma empresa que se dedica a estimular e promover o autoconhecimento do Brasil. O nome não poderia ser mais adequado: Brasis.
 
Nos últimos anos, Mayra tem construído uma rede de pessoas que têm descoberto e promovido novos Brasis. E é sobre esses e outros desafios e oportunidades que o Portal AeC conversou com a pesquisadora.
 
Para começar, o que é, e a que se propõe, o Brasis?
O Brasis é uma central de conteúdos e uma rede de pesquisas e projetos que existem para estimular o autoconhecimento do Brasil de forma propositiva.
 
Na prática, funcionamos como uma editoria jornalística literária que acredita que é importante que os brasileiros conheçam mais o Brasil, inclusive, porque existe muito repertório interno que sequer consideramos quando precisamos criar soluções ou oportunidades para o país. Como toda publicação, o Brasis possui algumas editorias de conteúdo com pautas definidas.
 
O projeto possui diversos públicos: brasileiros que estão abertos a conhecer mais o país, instituições e marcas que querem se associar à iniciativa e, principalmente, disseminadores de informação (educadores, meios de comunicação, jornalistas e publicações).

O Brasil é um país rico e complexo culturalmente falando. E mesmo com tanta diversidade, pode-se dizer que existe uma identidade genuinamente brasileira? Se sim, qual seria?
Gosto muito da fala da Isa Grinspum, retomando Viveiros de Castro, no primeiro episódio da série Tão Longe Tão Perto. Nesse material, ela diz que “o Brasil não tem uma identidade, o Brasil tem uma entidade”.

Estamos em um momento de volta para nossa história e trajetória cultural. Há poucos meses, Domenico de Masi lançou o livro O Futuro Chegou, apresentando o Brasil como um modelo para várias demandas contemporâneas. No último mês, a estudiosa Lilia Schwarcz colançou o Brasil: Uma Biografia. Todos esses trabalhos são tentativas de evoluir nossa noção de Brasil. Eu me identifico com a linha de pensamento da Isa e do Viveiros de Castro que, na minha opinião, não se limita a um esforço de explicar facilmente o que o país é ou tem, mas sim abraça um dos principais legados brasileiros: o Brasil imaterial.
 
Qual a principal dificuldade que o povo brasileiro encontra para se autoconhecer? Por que isso acontece?
É um conjunto de variáveis históricas que fazem com que tenhamos dificuldade de autoconhecimento, não conseguiria elencar uma principal. O que acho mais urgente é uma mudança de olhar: nós sequer conseguimos ver como existem recursos nos cotidianos e culturas do Brasil, é como se usássemos uma lente que nos deixa ainda mais míopes sobre nós mesmos. Tenho organizado diversas oficinas com a intenção de despertar o olhar do brasileiro para o Brasil e, na prática, uma grande barreira das pessoas é assumir que sabemos muito pouco sobre nós mesmos e, a partir disso, se abrir para o desconhecimento com uma intenção propositiva.
 
Mesmo em atividade há tão pouco tempo, o que de mais especial a Brasis já descobriu sobre o Brasil e os brasileiros?
A minha principal alegria foi encontrar diversos outros brasileiros que, em seu local e de acordo com as ferramentas que possuem, também estão trabalhando para estimular o autoconhecimento do Brasil. Existe um movimento nesse sentido e é muito válido descobrir que sou somente uma dessas pessoas. O Brasis nasce justamente dessa descoberta: é possível e muito mais coerente trabalhar em rede para estimular o autoconhecimento do Brasil.
 
O Brasis possui uma Biblioteca Itinerante. Como ela funciona e quais tem sido os principais resultados dessa iniciativa?
A Biblioteca Itinerante do Brasis surgiu quando o projeto ganhou a primeira remessa de doação de livros de uma instituição que nos contratou para um trabalho. A possibilidade de escolha de diversos marcos teóricos ou catálogos artísticos me fez pensar que não faria sentido que tantos volumes ficassem somente em minha casa. De lá para cá, a biblioteca já circulou em alguns lugares de São Paulo: um salão de beleza na região central e uma oficina artística no Morro do Querosene. Nos locais, os livros ficam disponíveis para que todos possam consultá-los e também ter acesso a esse conteúdo brasileiro. Talvez um dos principais resultados da iniciativa seja de abertura para o tema Brasil: algumas vezes é bem mais fácil que as pessoas se interessem por um tema se chegamos com uma imagem de um livro ou com aspas de um autor.
 
No momento, a biblioteca está em revisão já que o Brasis também está recebendo várias doações de livros e publicações. A vontade é fazer essa troca de livros aumentar pelo País. Estamos procurando formas de viabilizar projetos nesse sentido e dispostos a fazer parcerias com instituições que nos apoiem nessa direção.
 
Nos últimos anos, percebe-se uma voz cada vez maior e mais forte de áreas “fora do eixo” do Brasil. Com isso, movimentos como o funk carioca e o tecnobrega paraense, para citar apenas dois exemplos, conquistaram grandes audiências em todo o País. A qual(is) fator(es) você atribui esse fenômeno?
A principal explicação é justamente aquela que temos mais dificuldade de enxergar: essas produções são muito boas, são verdadeiras e conversam com o brasileiro. Isso sempre foi assim. A novidade é que hoje, “nada é mais central do que a periferia” e “não existe nada mais contemporâneo que a tradição”.
 
Nos últimos anos, o interior do Brasil tem ganhado força socioeconômica. Na sua opinião, esse crescimento muda a percepção dos grandes centros em relação a essas regiões do país ou o interior continua sendo um tesouro escondido?
Os diversos Brasis, em sua maioria, sempre foram muito fortes já que evoluem a partir de si mesmos e com base em uma estratégia (e estética) da sobrevivência. Começa a surgir uma inquietação, um incômodo para entender o que é que acontece que essas culturas conseguem resistir. O interior do Brasil nunca foi um tesouro escondido na minha opinião: só é um tesouro que não conseguimos ver.