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Em busca do extraordinário

Entrevista com o empresário e montanhista Gustavo Ziller

Foto: Divulgação 
 


O empresário mineiro Gustavo Ziller é um sujeito inquieto. Ziller já fez de tudo: organizou eventos, criou estações de rádios, é dono de bares, fundou umas das maiores empresas de apps para mobile do país. E agora se propôs a escalar os famosos 7 Cumes, ou seja, os pontos mais alto de cada continente.
 
Depois de levar um susto provocado por um mal cada vez mais comum entre executivos – a Síndrome de Burnout -, o empreendedor resolveu mudar sua vida radicalmente e seguir montanha acima. “Eu escolhi o montanhismo para me tirar do limbo e por causa da exposição aos desafios e ao extraordinário”, conta Ziller.
 
A empreitada virou um programa no canal de TV a cabo Off, um livro, Escalando Sonhos (Tuva Editora) e um monte de aprendizados e experiências. Conversamos com Ziller sobre isso e mais.
Você foi sócio de uma das maiores produtoras de software para plataformas mobile do Brasil. Hoje, você está empenhado em escalar os sete cumes mais altos do mundo. Dá para fazer um paralelo entre montanhismo e o empreendedorismo?

Antes, apenas uma correção de rota. Os 7 Cumes são os pontos mais altos de cada um dos 7 continentes, e não as montanhas mais altas do mundo. Claro que são montanhas enormes, entre elas o Everest. Eu escolhi o montanhismo para me tirar do limbo por causa da exposição aos desafios e ao extraordinário. Cada montanha tem sua história, precisa de preparação específica, tem geologia e geografia díspares e por aí vai. É muita variável para planejar, viver e aprender. No empreendedorismo é a mesma coisa. Costumo dizer que não importa a sua formação acadêmica, experiência de vida e bagagem profissional, fundar uma empresa é voltar pra 5ª série do ensino fundamental, sempre.

O que te motivou inicialmente a cuidar da saúde e enfrentar o desafio dos sete cumes foi ter passado por um mal que acomete muitos executivos hoje: a famosa Síndrome de Burnout. O que você aprendeu com essa experiência e o que você tem para dizer para quem trabalha no meio corporativo para evitar o burnout?

O erro principal é excluir parte do todo quando você faz uma opção pessoal. Escolhi o 1, então coloca o 2 de lado. Por exemplo, resolvi ter filhos muito cedo, a minha mais velha já tem 15 anos. Desde sempre incluo meus filhos em todos os meus sonhos e movimentos, com isso a família fica sempre preservada e na mesma página. Quando você exclui começa o problema. É assim na linha tênue entre trabalho e vida pessoal. Normalmente, você é quem realmente é fora da empresa, e algumas empresas massacram tanto na cultura, estilo disciplina militar, que você se encolhe como pessoa. Um dos meus objetivos nas palestras e aulas que dou é mostrar o enorme ganho para empresa e para a pessoa quando essa divisão não acontece. O Ziller que sobe montanhas é o mesmo Ziller pai, profissional e amigo.

Até se envolver com a prática do montanhismo, você é era uma pessoa sedentária. Em sete meses, você se tornou apto para subir os 8 mil metros de Annapurna, no Nepal. O que nos resta perguntar: subir uma das maiores montanhas do mundo é possível para qualquer um?

No Annapurna cheguei ao Campo Base, 4130 metros passando por 5200 metros. Eu não fui com a intenção de atacar o cume, mesmo porque o Annapurna é um dos mais difíceis desafios do montanhismo. Essa experiência que me fez querer ir mais longe. Depois do Annapurna eu montei o projeto 7 Cumes, entrei numa preparação específica e já consegui chegar ao ponto mais alto da América do Sul (Monte Aconcagua) e África (Monte Kilimanjaro), com 6962 metros e 5895 metros, respectivamente. Acredito exageradamente que pessoas comuns fazem coisas extraordinárias.

Você é um grande defensor da inovação disruptiva. Defende que é importante no mundo dos negócios experimentar e arriscar. “Vamos lá, depois a gente vê o que acontece”, você já disse sobre empreender. A pergunta é: ter uma boa ideia e persistir nela é mais importante que pesquisar o mercado e planejar?

Sim. Mas saber a hora de parar e seguir em frente também. Disruptivo pra mim nem sempre tem a ver com tecnologia, disruptivo é aquela sensação de "nó, por que não pensei nisso antes", sabe? Isso vale para qualquer campo, segmento ou indústria. Muitas vezes meus filhos me mostram caminhos disruptivos de coisas simples do dia a dia. Isso reforça minha tese de que botar pra fazer é mais importante do que botar pra pensar.

Seguindo com o tema inovação, como você vê o ecossistema de startups e a indústria de inovação no País? O Brasil tem vocação para a inovação tecnológica?

Confesso que ando desiludido com uma parte importante na cadeia de inovação que é o financiamento ou funding. É muito difícil apostar em ideias no Brasil, isso não é modelo mental e cultural nosso, e até do latino, na verdade. Inovação não gera receita no início, nunca. Nem mesmo o Google ou a Apple. No Brasil, os fundos de investimento, de startup a crescimento, investem em planos de negócios, o resto é blá blá blá. Só teremos empresas de bilhões, ou listadas em bolsas, ou com receitas sólidas, quando esse modelo mental mudar. Até lá os casos de sucesso serão sempre exceções.